Posts Tagged ‘TIM MCKENNA’

Malik e a lenda

julho 29, 2010

Eu ouvi lendas sobre um guerreiro tão habilidoso, humilde, apaixonado pela vida e altruísta, no sentido de ter compaixão com os outros e o dom de saber dar a glória ao próximo, que simplesmente não poderiam ser verdade. Descobri que o taitiano Malik Joyeux era a origem desse mito. Infelizmente, eu não tive a chance de conhecê-lo, mas, pelo depoimento do fotógrafo Tim Mckenna (abaixo e publicado em uma matéria minha para a revista Go Outside) a lenda se justifica. Após sair ileso de uma das maiores ondas já surfadas em Teahupoo, durante a sua primeira queda de tow in no pico, em abril de 2003, ele simplesmente descreveu a situação e disse: “Uh, aquilo foi intenso….”

Tim McKenna sobre Malik Joyeux:

“A performance mais corajosa que eu já presenciei foi a do Malik encarando a maior onda que ele surfou, em Teahupoo, na primeira experiência dele de tow-in naquele pico. Nesse dia em Teahupoo, no Taiti, todos os surfistas estavam pegando os tubos mais incríveis de suas vidas, mas eles também sabiam que a tragédia poderia acontecer a qualquer momento, por isso muitos estavam felizes por simplesmente assistir sentados no canal. O Raimana (parceiro de tow-in de Malik) ofereceu uma última onda ao Malik… Alguns minutos depois, a maior bomba do dia entrou e o Raimana cuidadosamente posicionou o Malik no lugar certo. Ele gritou: ‘Espera, calma, calma. Ok, solta!’ e o Malik largou o cabo e se encaixou na base de uma onda que tinha uns dez metros de face, enquanto aquela coisa explodia ao redor dele. O spray do tubo quase o derrubou e o mandou direto para a escuridão, mas ele conseguiu permanecer em pé e chegar até a segurança do canal. Aos 23 anos de idade, Malik Joyeux tinha surfado talvez a onda mais poderosa de todos os tempos.

Esse garoto que eu conheci era, aos meus olhos, o melhor surfista do mundo. Não somente porque ganhou títulos mundiais ou surfou as maiores ondas, mas porque era a personificação de tudo o que o surf representa. Quem surfasse ou simplesmente estivesse ao seu lado era imediatamente cativado pelo amor que ele sentia pela vida. Ele era capaz de comunicar a essência do surf por meio da sua própria vida. Um oceano de risadas, respeito, inocência, amizade e generosidade, o símbolo de uma nova geração de atletas, tão puro a ponto de ser capaz de mostrar emoções reais. Não unicamente as emoções de surfar ondas gigantes ou vencer competições, mas a simples emoção de amar o oceano e ser cúmplice de todos os seus segredos e belezas“.

Malik Joyeux faleceu no dia 2 de dezembro de 2005, surfando a onda de Pipeline, no Havaí, mas o exemplo que ele deu ao mundo sobre como enfrentar os seus medos e amar todas as coisas permanecerá para sempre na alma dos surfistas.

YEAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH MALIK! ALOHA BRO!

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As incríveis histórias de Tim McKenna

dezembro 18, 2009

Tubos assassinos, avalanches e helicópteros fumegantes fazem parte do cotidiano profissional de McKenna, que corre tantos riscos quanto os atletas que fotografa

Sabe aquele tipo de foto que atrai a atenção até do ser humano mais indiferente? Uma cena incrível acontecendo em condições perfeitas de luz natural, como alguém pegando um tubo colossal, dropando uma montanha de neve ao lado de uma avalanche ou simplesmente um animal clicado sob a luz do sol… Quando você se deparar com uma dessas imagens, verifique o crédito do autor num dos cantos da foto. Existe uma grande possibilidade de você encontrar o nome Tim McKenna, um dos melhores fotógrafos “outdoor” (que lidam essencialmente com luz natural) do mundo e um dos maiores nomes em fotos de surf, snowboard, windsurf, motocross e alpinismo.

Em busca das melhores cenas, ele arrisca a própria vida, lado a lado com os atletas, e coleciona, junto com seus cliques, verdadeiras histórias de aventura, como as que você conhecerá a seguir.

CURRÍCULO E EQUIPOS NOTA 10

McKenna estudou ciência política e literatura na Universidade de Queensland, na Austrália, mas iniciou sua carreira de fato em Los Angeles, quando trabalhou como assistente para fotógrafos de moda e publicidade. O seu equipamento de trabalho inclui mais de sete câmeras e 21 lentes com todos os tipos de diferenças técnicas, além de quatro variações de caixas estanque, utilizadas para fotografar dentro d’água. “Um equipamento profissional é muito importante e depende muito do assunto a ser retratado. Atualmente, os fotógrafos de surf, por exemplo, viajam com algo em torno de U$ 10 e U$ 30 mil em equipamentos. Um PC também está se tornando uma obrigação para os fotógrafos itinerantes, além de equipamentos para digitalizar imagens”, aconselha McKenna.

Em 1990, o fotógrafo foi contratado pela marca Oxbow, o que potencializou o seu interesse por surf e outros esportes radicais. Desde então, ele trabalhou com grandes atletas, como os surfistas Laird Hamilton e Andy Irons, o piloto de motocross Jean-Michel Bayle e o escalador Patrick Edlinger, entre outros. “Ainda tenho muitas ambições e devo confessar que sou um pouco supersticioso, porque não gosto muito de especular sobre os meus projetos futuros. Mas acredito que quando você não possui sonhos e metas você está literalmente andando para trás”, ressalta McKenna. “Olhando o meu trabalho, me sinto feliz por ter criado algo duradouro e original, imagens que fazem as pessoas sonharem e respeitarem mais a natureza, e é exatamente isso o que eu quero continuar fazendo”, conclui o fotógrafo.

“Uma imagem inesquecível é aquela que você não vê freqüentemente. É a imagem que exerce um impacto forte por sua originalidade, qualidade e natureza do assunto retratado”, explica McKenna, que nasceu em Sydney, na Austrália, e atualmente reside em Paea, no Taiti. “A luz ideal acontece em momentos especiais em diferentes partes do planeta, mas eu notei que geralmente a luz é melhor no Hemisfério Sul do que no Norte”, revela o fotógrafo, que possui mais de 40 mil transparências originais e outras milhares de imagens digitais em seu estoque de fotos. McKenna já esteve em mais de 30 países para fotografar as melhores cenas de esportes radicais do planeta.

RISCO EXTREMO

“Quase morri fotografando. Uma vez, o helicóptero em que eu estava pegou fogo enquanto eu fotografava snowboard, mas felizmente o piloto conseguiu controlar o incêndio. Eu já fui pego por duas avalanches na Rússia, por uma onda enorme que virou o nosso barco em Tuamotu, na Polinésia Francesa, e já quase cai com o meu carro de uma ponte no Alasca – o veículo ficou suspenso no ar. Já presenciei situações extremas, como quebra de uma geleira na Rússia e uma avalanche durante uma viagem de snowboard. Os atletas tiveram muita sorte de sobreviver”, diz McKenna, que também surfa, pratica snowboard e detém o título de faixa preta de Kendo, arte marcial japonesa.

SAUDADES

“A performance mais corajosa que eu já presenciei foi a do Malik encarando a maior onda que ele surfou, em Teahupoo, na primeira experiência dele de tow-in naquele pico”, afirma McKenna, referindo-se ao surfista Malik Joyeux, que faleceu no dia 2 de dezembro de 2005, surfando a onda de Pipeline, no Havaí. “Nesse dia em Teahupoo, no Taiti, todos os surfistas estavam pegando os tubos mais incríveis de suas vidas, mas eles também sabiam que a tragédia poderia acontecer a qualquer momento, por isso muitos estavam felizes por simplesmente assistir, sentados no canal. O Raimana (parceiro de tow-in de Malik) ofereceu uma última onda ao Malik, que aceitou sem um milímetro de hesitação, pois ele vinha esperando o dia todo impacientemente por aquele momento. Alguns minutos depois, a maior bomba do dia entrou e o Raimana cuidadosamente posicionou o Malik no lugar certo. Ele gritou: ‘Espera, calma, calma. Ok, solta!’ e o Malik largou o cabo e se encaixou na base de uma onda que tinha uns dez metros de face, enquanto aquela coisa explodia ao redor dele. O spray do tubo quase o derrubou e o mandou direto para a escuridão, mas ele conseguiu permanecer em pé e chegar até a segurança do canal. Aos 23 anos de idade, Malik Joyeux tinha surfado talvez a onda mais poderosa de todos os tempos”, conta McKenna, emocionado. “Esse garoto que eu conheci era, aos meus olhos, o melhor surfista do mundo. Não somente porque ganhou títulos mundiais ou surfou as maiores ondas, mas porque era a personificação de tudo o que o surf representa. Quem surfasse ou simplesmente estivesse ao seu lado era imediatamente cativado pelo amor que ele sentia pela vida. Ele era capaz de comunicar a essência do surf por meio da sua própria vida. Um oceano de risadas, respeito, inocência, amizade e generosidade, o símbolo de uma nova geração de atletas, tão puro a ponto de ser capaz de mostrar emoções reais. Não unicamente as emoções de surfar ondas gigantes ou vencer competições, mas a simples emoção de amar o oceano e ser cúmplice de todos os seus segredos e belezas”, diz McKenna.

POR QUE TEAHUPOO?

As ondas de Teahupoo significam muito para Tim McKenna. “Elas simbolizam muitas coisas da vida. Estão sempre mudando – podem ser inofensivas, claras e com cores inacreditáveis um dia, e escuras, perigosas e ameaçadoras em outro. São ondas milagrosas que podem hipnotizar pela sua força e perfeição. Acredito que Teahupoo nos fascine tanto porque, apesar da nossa arrogância, nós sabemos que o ser humano não pode produzir nada sequer parecido com aquilo. Aquelas ondas são obviamente obra de algum tipo superior de inteligência. Então eu penso que em última análise elas literalmente representam e comprovam a existência de Deus”, define McKenna. Teahupoo, que significa “o fim da estrada” e está localizada a uma hora de Papeete, no Taiti, cria os tubos mais pesados e perfeitos entre todas as ondas da Terra registradas até o presente momento.

MANOBRA ENDIABRADA

“Quando o Laird surfou aquela onda em 2000 (17 de agosto), todos nós sabíamos que o mar estaria pesado, mas ninguém poderia imaginar nada como aquela onda. A primeira grande série de ondas entrou por volta de 8h30 da manhã. O parceiro do Laird o posicionou para uma onda, mas no último instante ele desistiu e não desceu. Neste momento, a maré estava totalmente seca e aquela quantidade massiva de água dobrando sobre o recife estava entortando as ondas. Aquela foi uma decisão que aconteceu em milésimos de segundo e que provavelmente salvou a vida do Laird. Após surfar algumas ondas intermediárias, ele estava pronto para as maiores”, conta McKenna. “Exatamente às 11h38 uma onda endiabrada, com o dobro do tamanho das ondas regulares que estavam quebrando, entrou no recife. O Laird soltou o cabo do jet ski e começou a acelerar sua prancha. A parede de 20 pés (aproximadamente sete metros) criou um tubo perfeito e ele se posicionou no que mais parecia uma caverna. A postura e a trajetória que ele assumiu na onda foram tão perfeitas como a onda em si. O spray do tubo o fez desaparecer, enquanto todos os barcos que estavam filmando a ação navegavam rumo ao canal para não serem atingidos por aquele monstro. Estávamos fugindo da zona de impacto quando vimos o Laird aparecendo por entre uma nuvem de água branca. Ele tinha se colocado para dentro do tubo mais grotesco já presenciado, e sobrevivido”, completa o fotógrafo.

Clique aqui para ver a reportagem da Revista Go Outside

O site oficial do fotógrafo é o www.tim-mckenna.com

A fórmula da Inspiração

setembro 25, 2009
Luz, câmera e muita ação. Esses são os elementos que compõem o trabalho de quem se dedica a produzir imagens de surf. Sempre fui literalmente um fotógrafo amador de surf, considerando que não vivo da fotografia e faço porque sou apaixonado. Como jornalista, escrever é a minha ocupação profissional. O texto, na minha opinião, funciona muitíssimo bem quando o intuito é estimular o raciocínio, fazer pensar. Mas imagens funcionam muito melhor quando a intenção é levar ao resto do mundo um pouco da sensação de estar absolutamente envolvido pelo oceano, acelerando sobre a face de uma onda, dentro de um tubo ou em uma praia paradisíaca, por exemplo. Imagens funcionam melhor para fazer sonhar.
Uma das boas entrevistas que eu acredito ter realizado na minha carreira, publicada em maio de 2009 no NEXTSURF, foi com o fotógrafo australiano Tim Mckenna. (Confira a entrevista!) Quando questionado sobre qual seria o maior legado de uma vida como fotógrafo, Mckenna afirmou que se sente “feliz por ter criado algo original e duradouro. Imagens que fazem as pessoas sonharem e respeitarem mais a natureza”.
Eu concordo plenamente: essa é a grande riqueza do trabalho desenvolvido por todos os profissionais que produzem imagens e textos de surf. A idéia é criar matérias que inspiram, fazem sonhar, porque sonhos são fundamentais para a elaboração de metas, que por sua vez necessitam ser concretizadas para que possamos atingir a felicidade.
É como disse o falecido poeta norte-americano JD Salinger: “o universo inteiro conspira a favor do homem que sabe o que quer”. Sonhar, idealizar e concretizar, essas são as etapas que formam o ciclo iniciado pela fórmula da inspiração.

Luz, câmera e muita ação. Esses são os elementos que compõem o trabalho de quem se dedica a produzir imagens de surf. Sempre fui literalmente um fotógrafo amador de surf, considerando que não vivo da fotografia e faço porque sou apaixonado. Como jornalista, escrever é a minha ocupação profissional. O texto, na minha opinião, funciona muitíssimo bem quando o intuito é estimular o raciocínio, fazer pensar. Mas imagens funcionam muito melhor quando a intenção é levar ao resto do mundo um pouco da sensação de estar absolutamente envolvido pelo oceano, acelerando sobre a face de uma onda, dentro de um tubo ou em uma praia paradisíaca, por exemplo. Imagens funcionam melhor para fazer sonhar.

Uma das boas entrevistas que eu acredito ter realizado na minha carreira, publicada em maio de 2009 no NEXTSURF, foi com o fotógrafo australiano Tim Mckenna. Quando questionado sobre qual seria o maior legado de uma vida como fotógrafo, Mckenna afirmou que se sente “feliz por ter criado algo original e duradouro. Imagens que fazem as pessoas sonharem e respeitarem mais a natureza”.

mentawai

Eu concordo plenamente: essa é a grande riqueza do trabalho desenvolvido por todos os profissionais que produzem imagens e textos de surf. A idéia é criar matérias que inspiram, fazem sonhar, porque sonhos são fundamentais para a elaboração de metas, que por sua vez necessitam ser concretizadas para que possamos atingir a felicidade.

É como disse o falecido poeta norte-americano JD Salinger: “o universo inteiro conspira a favor do homem que sabe o que quer”. Sonhar, idealizar e concretizar, essas são as etapas que formam o ciclo iniciado pela fórmula da inspiração.