A Universalidade das SURFemoções

Publicado em agosto de 2011 pela Onda Magazine:

Um dos principais pontos constantemente ressaltados pelo Dalai Lama, o líder espiritual do povo tibetano, é que os seres humanos, independentemente de nacionalidade, nível de instrução ou qualquer outro aspecto relacionado ao contexto no qual o individuo está inserido, são basicamente iguais. Isso quer dizer que sentimos as mesmas emoções elementares e a diferença estaria em como reagimos a elas. É a universalidade das emoções. Convidamos os surfistas Bruno Santos, Jessé Mendes e Kiron Jabour para testar a afirmação e entender porque somos tão diferentes apesar de sentirmos as mesmas emoções fundamentais.

Por exemplo, mostramos a foto número 2 aos atletas e pedimos que eles expressassem as suas emoções com relação à imagem usando apenas uma ou poucas palavras. Nesta ordem, Jessé, Kiron e Bruno responderam: “uhu, vamos logo pra água”, “eu quero” e “felicidade”.  Essa é a ideia do Dalai Lama: todos querem ser feliz e evitar a dor. Para os surfistas, um tubo cristalino e sem crowd é o sinônimo perfeito de felicidade.  Todos sentem assim. A neurocientista estadunidense, Cadence Pert, ressalta que “este é um comportamento (evitar a dor e buscar o prazer) verificado até em seres unicelulares. Ou seja, não é uma característica exclusiva dos seres humanos, mas uma propriedade natural do funcionamento da vida”.

O trabalho do pesquisador Paul Ekman, psicólogo estadunidense pioneiro no estudo das emoções e expressões faciais, parece realmente apontar nesta direção. Ekman realizou estudos culturais com tribos isoladas em muitos países ao longo dos anos, exibindo fotos de rostos humanos que demonstravam diferentes tipos de emoções para membros destas comunidades. Vale destacar que estes sequer o conheciam ou tinham realizado qualquer tipo de contato prévio com outros seres humanos que não os habitantes das suas próprias tribos. Ou seja, o fator cultural de outras comunidades não estava presente na equação.

Ekman descobriu que os membros das tribos, apesar do isolamento e da ausência do contexto cultural, eram perfeitamente capazes de reconhecer as emoções demonstradas nas faces. Após muitos anos de trabalho, o pesquisador concluiu que seis expressões emocionais são universais: felicidade, tristeza, raiva, medo, asco e surpresa.

As expressões faciais podem universalmente comunicar as emoções. O fato de diferentes culturas apresentarem formas semelhantes de expressão facial pode sugerir que estas manifestações sejam programadas geneticamente. Ao mesmo tempo, maneiras distintas de expressar emoção dentro de uma cultura sugerem que existem sim componentes que são aprendidos e totalmente referentes ao contexto cultural e a experiência particular de cada indivíduo.

Quando exibimos a foto número 4, Bruno Santos disse imediatamente “Déborah”, Jessé exclamou “que gostosa!” e Kiron perguntou “É pra mim?”. E quando mostramos a foto número 3, Bruno disse “acontece”, Jessé se sentiu “desesperado de medo dos pontos” e Kiron preferiu isolar com um “não, obrigado”. O que isso quer dizer? Que a gata da foto 4 é realmente linda! E que, apesar de todos sentirem essas seis emoções elementares, funcionamos estabelecendo associações para entender o mundo.

Quando você lê a palavra “tubo”, todo o seu processo cognitivo utiliza as referências que você de alguma forma assimilou durante a vida (tubos que você já pegou, tipos diferentes de tubos, tubos de PVC, tubos de esgoto, entre muitos outros) para estabelecer associações e compreender o termo. Muitas vezes, são essas associações que nos trazem os problemas.

O IAT Implicit Associantion Test (Teste de Associações Implícitas), da Universidade de Harvard, avalia as associações que estão atrás da porta fechada do inconsciente, e que ainda assim influenciam tanto o nosso comportamento (acesse ondamagazine.com para fazer o teste). A ideia é perceber como reagimos a situações espontâneas, quando não estamos sendo testados. Por exemplo, repare na forma como você reage no mar quando outro surfista te rabeia. Faz diferença quem este outro surfista é? Claro que sim. “Tudo depende da pessoa. Todo mundo é diferente e cada um reage da sua maneira quando rabeado”, responde Kiron. Como essa diferença associativa, que faz todo mundo parecer diferente, está organizada em você é o que o IAT demonstra.

Sabia, por exemplo, que a altura média do homem estadunidense é 1,75m e que, entre os CEOs masculinos das empresas que estão entre as 500 da Fortune (lista das maiores corporações dos EUA), esta média sobe para praticamente 1,85m? E daí? Você pode pensar duas coisas quando eu faço esta pergunta. A primeira: queria ser mais alto! Ou a segunda: por que esse grupo é 10cm mais alto do que o resto do país? Caso você tenha optado pela primeira, sem dúvida o IAT Implicit Association Test, da Universidade de Harvard, vai te assustar. Existe um modelo (alimentado principalmente por veículos de comunicação de massa) que reforça associações do tipo: alto é bom, baixo é ruim, magro é bom, gordo é ruim, entre outros milhões que implicitamente formam a nossa visão do mundo e geralmente nos levam ao consumismo.

As associações implícitas estão em todo lugar, inclusive no surfe. Mas a simples prática do surfe pode nos ajudar a destruir algumas associações que são nocivas para a sociedade e estão ultrapassadas. “Na água, mesmo com problemas de vez em quando, somos todos iguais. O simples fato de pegar umas ondinhas no final do dia depois do trabalho ajuda muito a relaxar”, afirma Bruno Santos.

Segundo Paul Ekman, durante uma reunião que o Dalai Lama teve com vários cientistas, ele os olhou e disse: “vocês não sabiam que são as religiões que dividem o mundo? O que realmente nos une são as emoções humanas, as nossas emoções, a compaixão por quem sequer conhecemos, que na sociedade tibetana, por exemplo, é uma norma, resultado de 800 anos praticando esta postura. Isso une o mundo”, conclui Ekman.

Exatamente por isso você geralmente grita amarradão quando vê alguém passando por dentro daquele tubo incrível, mesmo que seja um estranho. Porque naquele momento vocês se identificam, dividem a mesma emoção causada pelo oceano e se unem neste processo.

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Uma resposta to “A Universalidade das SURFemoções”

  1. Maricy Says:

    “você geralmente grita amarradão quando vê alguém passando por dentro daquele tubo incrível, mesmo que seja um estranho. Porque naquele momento vocês se identificam, dividem a mesma emoção causada pelo oceano e se unem neste processo.”

    Um graaande beijo, amarradona!!!
    Marry!

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