Dez Ilhas e a Morabeza

Existe um grupo de dez ilhas, localizado a Oeste da África e com área total de 4.033 km2, que oferece condições clássicas de surfe: dezenas de points com ondas que variam entre dois e 15 pés, água verde e azul, quente e com menos crowd do que o Lado Negro da Lua…


Ondas perfeitas e sem crowd são o sonho de praticamente todo surfista. Em um planeta abarrotado de gente, carros e surfistas, essa é uma missão constante na rotina de quem pega onda atualmente: fugir do “olha eu, olha eu…”. Mas como, em 2011, ainda encontrar ondas perfeitas que, pelo menos, não estão sendo constantemente surfadas? Como você encontra qualquer outra coisa na vida: procurando.

O meu caminho para encontrar ondas perfeitas e absolutamente vazias me levou para o meio do Oceano Atlântico, em um conjunto de dez ilhas e no país que fala o português e o crioulo. O crioulo é um idioma parecido com o nosso português, quase uma adaptação ou abreviação da nossa língua, mas cada ilha tem a sua própria variação do idioma. Em algumas dessas ilhas, que foram descobertas em 1460 e serviram de colônia para Portugal desde o século XV até a recente independência, em 1975, as pessoas são absolutamente inteligentes, amigáveis, receptivas e muitas nunca viram o surfe, sequer por revistas ou pela televisão.

Surfamos totalmente sozinhos durante os 35 dias da nossa estada. De vez em quando, os moradores e os amigos locais que fizemos vinham nos assistir surfando. Ficavam na praia, em cima das pedras e se protegendo do sol, observando com curiosidade e admiração cada onda surfada. Os pescadores também, nitidamente, passavam tão perto quanto podiam da arrebentação para nos olhar surfando dos seus barcos.

A população dessas ilhas é realmente muito carinhosa e gosta de receber, principalmente os brasileiros. Eles vivem sob a premissa do que chamam de “Morabeza”, que significa “Amor à bessa” em crioulo. Em algumas ilhas, você pode sair com dois bons pedaços de peixe e suco de manga para o jantar apenas porque pediu uma informação, por exemplo.

A posição estratégica das ilhas nas rotas que ligavam Portugal ao Brasil e ao resto da África contribuíram para o fato dessas serem inicialmente utilizadas como entreposto comercial. Abolido o tráfico de escravos, em 1876, o interesse comercial de Portugal pelas ilhas diminuiu, voltando a crescer somente a partir da segunda metade do século XX. No entanto, já tinham sido criadas as condições para que as dez ilhas se tornassem o que são hoje: europeus e africanos unidos em uma simbiose, criando um povo de características próprias. Um povo que vive a Morabeza, vive amando à bessa.

A economia das dez ilhas está organizada sobre a agricultura, a riqueza marinha do arquipélago e a prestação de serviços, que juntos correspondem a 80% do PIB da nação. Recentemente, o turismo vem ganhando relevância muito em virtude das ondas e dos ventos que sopram na região. Basicamente, os moradores de algumas das dez ilhas vivem uma cultura de subsistência, que na verdade poderia ser chamada de “cultura de existência”, considerando que eles se preocupam muito menos com o que estão ganhando e acumulando e muito mais com o que precisam cultivar e fazer para viver bem hoje. Esse modelo torna a competição entre as pessoas absurdamente menos agressiva e possibilita o surgimento de filosofias como a Morabeza.

Mesmo que você já tenha entendido de qual país estou falando, não espere encontrar o lugar certo no Wannasurf ou em outro site qualquer.  A combinação perfeita entre qual das dez ilhas, quando e onde pode ser particularmente difícil por causa dos ventos e direções de swell para cada bancada. Além disso, em algumas ilhas, as ondas quebram pequenas no trecho de mar que possui população residindo à beira, o que faz as pessoas daquela ilha afirmarem que as ondas são fracas na região. Oito quilômetros depois você encontra uma bancada escondida que produz ondas perfeitas com tubos que rodam por dezenas de metros.  Algumas das dez ilhas oferecem bancadas de pedra que funcionam o ano todo. Por estarem localizadas bem no meio do Atlântico, todas as ondulações, de Norte a Sul e as variações entre os opostos, acertam as ilhas e acendem as bancadas.

O povo das dez ilhas também é conhecido por sua musicalidade, bem expressa por manifestações populares, como o Carnaval de Mindelo, cuja importância faz com que a cidade seja conhecida como “Brazilim” (ou “pequeno Brasil”). Na música, existem diversos gêneros próprios, dos quais se destacam a Morna, o Funaná, a Coladeira e o Batuque.

No que diz respeito à gastronomia, a cachupa é o prato mais tradicional das ilhas. Elaborada com feijão e milho estufados, algumas vezes ela pode conter legumes, batata e banana cozida. A carne e o peixe podem também ser servidos separadamente, na mesma travessa dos legumes cozidos. Quando a cachupa é deixada para engrossar de um dia para o outro, é aquecida e refogada em uma frigideira, o prato resultante é conhecido como cachupa frita ou cachupa guisada. Todas as variações da cachupa são ótimas pedidas para encarar sessões prolongadas e solitárias de surfe. Muita energia!

Em todos os seus aspectos, a cultura das dez ilhas caracteriza-se por uma miscigenação de elementos. Não se trata de um somatório de culturas convivendo lado a lado, mas sim um terceiro produto, totalmente novo, resultante de um intercâmbio que começou há quinhentos anos. Para os surfistas, o ambiente não poderia ser mais favorável: calor, água quente, ondas perfeitas, crowd zero e amor à bessa. Viva as dez ilhas e a Morabeza!

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2 Respostas to “Dez Ilhas e a Morabeza”

  1. maricy blanco do valle Says:

    Tem investimento melhor que viajar?? Tudo novo nesse post pra mim, o lugar, as comidas…só dois malas queridos que eu reconheci! Big aloha Cezinhaaaaaa!! bj dA Marry

  2. Paul Mandacaru Says:

    Boa matéria, boas fotos!
    Cabo Verde…. po vcs falam tudo menos o nome rsrs
    abracos

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